Por que Pazuello quer censurar o movimento pró-Palestina?
Deputado da extrema-direita tenta copiar Trump na perseguição a quem se solidariza com a Palestina sob a acusação de antissemitismo
O deputado federal Eduardo Pazuello (PL-RJ), ex-ministro da Saúde de Jair Bolsonaro durante a pandemia de coronavírus, protocolou na Câmara dos Deputados o projeto de lei 472/2025, que criminaliza críticas ao Estado de Israel ao equipará-las ao antissemitismo. O projeto adota a controversa definição de antissemitismo da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA, na sigla em inglês).
Sob o pretexto de combater o racismo contra judeus e preservar a memória do Holocausto, essa definição tem sido utilizada em países europeus e nos EUA para perseguir ativistas, políticos, professores e jornalistas que denunciam o Estado de Israel e se solidarizam com a causa palestina. A definição da IHRA interpreta algumas críticas a Israel como manifestações contemporâneas de antissemitismo.
Por exemplo, equiparar ações de Israel ao Holocausto nazista seria considerado antissemita. Por essa razão, a declaração do presidente Lula, que comparou o genocídio israelense em Gaza às ações nazistas na Segunda Guerra Mundial, foi classificada como antissemita por entidades sionistas brasileiras, como a Confederação Israelita Brasileira (Conib).
Essa concepção busca tornar o Holocausto judeu um crime histórico incomparável, conferindo aos judeus o status de vítimas excepcionais e legitimando a criação do Estado de Israel, em 1948, como uma resposta singular do Ocidente. A instrumentalização do Holocausto, assim, serve para proteger Israel de julgamentos à luz do direito internacional e da Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio, redigida em 1951 justamente após o Holocausto. Com isso, o regime racial de Israel permanece impune.
O caso ilustra como a definição da IHRA é utilizada para censurar a liberdade de expressão no debate público e restringir a liberdade acadêmica nas universidades. No Reino Unido, um estudo que investigou 40 acusações de antissemitismo em universidades entre 2017 e 2022, com base na definição da IHRA, concluiu que nenhuma denúncia foi considerada procedente.
A definição da IHRA e a acusação de antissemitismo tornaram-se armas para silenciar críticas a Israel que geram desconforto em judeus sionistas, mas que não representam ameaças reais, como ocorre nas práticas concretas de racismo. As denúncias acabam estigmatizando os alvos e provocando medo e danos psicológicos.
Desde outubro de 2023, professores foram demitidos e estudantes expulsos de universidades por se mobilizarem contra o genocídio em Gaza, amparados na definição da IHRA. Sob o governo Trump, a perseguição a quem é rotulado como antissemita também serviu para prender e deportar imigrantes do Sul Global solidários à causa palestina. Recentemente, a PUC-SP tornou-se a primeira universidade brasileira a adotar a definição da IHRA, o que gerou temor na comunidade acadêmica.

A definição da IHRA reforça uma visão racializada da cidadania israelense, tratando o "povo israelense" exclusivamente como judeu e caracterizando Israel como o "judeu entre as nações". Assim, críticas ao caráter racial do Estado de Israel, como a acusação de ser um projeto de supremacia judaica sobre os palestinos, são classificadas como antissemitas. A soberania israelense é confundida com a existência do povo judeu, impedindo a crítica legítima às políticas de apartheid.
Além disso, a definição da IHRA reflete uma concepção reacionária de antirracismo, típica das extremas-direitas: em vez de combater desigualdades e hierarquias, essas correntes defendem a preservação das "diferenças" entre grupos étnicos e culturais. Essa falsa ideia de antirracismo vê a convivência intercultural e a mestiçagem como ameaças à "pureza" das comunidades e de suas instituições.
Desse modo, o direito à diferença, historicamente reivindicado por povos oprimidos, é deturpado para proteger Estados nacionais étnicos contra a presença de grupos politicamente minoritários, como indígenas e imigrantes. Por isso, a definição da IHRA é promovida por líderes de extrema-direita como Donald Trump, Marine Le Pen (França) e Viktor Orbán (Hungria) — e, agora, pelos bolsonaristas brasileiros, como Pazuello.
O lobby israelense como força da extrema-direita global
Eduardo Pazuello tornou-se um dos principais representantes dos interesses israelenses no Congresso Nacional. Apesar de ter supostas origens judaicas, essa identidade nunca foi relevante em sua trajetória militar e política. A aproximação com Israel começou apenas em 2020, quando se tornou ministro da Saúde de Bolsonaro.
Como ministro, Pazuello estreitou laços com o embaixador israelense Yossi Shelley. Após o colapso do sistema de saúde em Manaus, em janeiro de 2021 — quando teria testado a hipótese da "imunidade de rebanho", provocando a morte de milhares —, Brasil e Israel passaram a cooperar no combate à pandemia. Em março do mesmo ano, o então chanceler Ernesto Araújo e assessores de Pazuello visitaram Israel para avaliar o uso de um spray nasal contra o vírus — até hoje sem eficácia comprovada.
O cargo de ministro também abriu espaço para uma aproximação com a comunidade judaica do Rio de Janeiro. No fim de 2021, Pazuello participou como convidado de honra da posse da nova diretoria da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (FIERJ).
Como deputado federal, intensificou sua atuação em temas ligados a Israel e à comunidade judaica. Logo após o ataque de 07 de outubro de 2023, Pazuello assinou documento solicitando ao Itamaraty a classificação do Hamas como "organização terrorista" e colaborou com a bancada bolsonarista e o embaixador Daniel Zonshine para pressionar o governo brasileiro por uma resposta mais dura à operação palestina.
Em 16 de outubro de 2023, o deputado solicitou a criação de um plano nacional de proteção a sinagogas e comunidades judaicas. Apesar de não haver ameaças efetivas no Brasil, a iniciativa foi bem recebida por entidades judaicas e interpretada como uma tentativa de insinuar que o governo petista seria negligente na proteção dos judeus.
Em março de 2025, Pazuello revelou ter atendido a uma solicitação da Embaixada de Israel para pressionar o governo brasileiro a classificar o grupo iemenita Ansar Allah como organização terrorista, em razão dos ataques a embarcações israelenses no Mar Vermelho em solidariedade à Palestina. Essa aproximação com o lobby israelense se consolidou com o projeto de lei para adoção da definição da IHRA, apresentado em abril de 2025.
Atualmente, onze Estados brasileiros já adotaram a definição da IHRA: Amazonas, Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, Rondônia, Roraima, Santa Catarina e São Paulo. Isso é resultado da atuação conjunta da Conib com a Stand With Us Brasil, um braça à direita do lobby israelense no Brasil.
A atuação de Pazuello revela o alinhamento entre parte da comunidade judaica brasileira e o lobby israelense com a extrema-direita nacional. Inicialmente próxima da comunidade evangélica e representada por figuras como Marcelo Crivella, essa aliança expandiu-se para líderes bolsonaristas. Em jantar promovido pela Conib, em novembro de 2024, em São Paulo, estiveram presentes governadores bolsonaristas como Tarcísio de Freitas (SP), Ronaldo Caiado (GO) e Claudio Castro (RJ), além da deputada federal Carla Zambelli (SP) e o senador Carlos Viana (MG).
Na ocasião, o presidente da Conib, Cláudio Lottenberg, afirmou: "Eu não convidei o atual presidente [Lula], mas o futuro presidente do Brasil está nessa sala."
Essa guinada rompe com a tradição do lobby israelense e de entidades judaicas de manter relações com todo o espectro político brasileiro. Mas reflete uma tendência internacional, em que o apoio a Israel se concentra nas extremas-direitas — mesmo entre grupos e políticos historicamente antissemitas, como Steve Bannon, estrategista de Donald Trump.
Nos Estados Unidos, o principal lobby pró-Israel, o AIPAC (American Israel Public Affairs Committee), distanciou-se do Partido Democrata após o acordo nuclear de Barack Obama com o Irã, em 2015. Trump, eleito em 2016, rompeu o acordo e fortaleceu a ligação entre o AIPAC e o Partido Republicano, embora a maioria dos judeus americanos siga votando nos democratas. Além disso, Trump tem utilizado práticas israelenses de perfilamento racial para perseguir minorias políticas, sob o pretexto de combater o antissemitismo.
Ao propor a adoção da definição da IHRA no Brasil, Pazuello e os bolsonaristas buscam replicar a perseguição política promovida por Trump nos EUA. Longe de proteger a comunidade judaica brasileira, a IHRA serve para censurar a solidariedade com a Palestina e blindar o regime de apartheid de Israel de críticas. É preciso que as elites e as bases políticas brasileiras se atentem para o grave risco que a atuação do lobby israelense, em conjunto da extrema-direita, representa para a democracia no país.





É simbólico mas uma forma de pressão, dá para votar contra o projeto no site da Câmara.